Friday, August 31, 2007

Transcorrida a sétima lua ...

Transcorrida a sétima lua não recordo
as mulheres de cuja sabedoria aprendi.
Guardo o claro rosto daquela
que me recebia no templo do seu corpo
como se eu fora um deus

Tao Li (séc. VIII)

(trad. de Rui Knopfli)

in Rosa do Mundo - 2001 Poemas para o Futuro, Assírio & Alvim

Wednesday, August 15, 2007

Episódios avulsos de um amor ardente (VI)

foto: The Kiss - August Rodin


- Dá-me um beijo
- Dou-te todos os que quiseres
- Ah... todos?!... Nem a eternidade tinha tempo suficiente para os beijos tantos que te peço... e quero!

Tuesday, August 07, 2007

Vem sentar-te comigo, Lídia... - Ricardo Reis

foto: Vista do rio Douro à tardinha

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos).

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimentos demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.

Ricardo Reis

in Poemas de Amor, Antologia de Poesia Portuguesa, Inês Pedrosa, Publicações D. Quixote, 2003