Showing posts with label poesia. Show all posts
Showing posts with label poesia. Show all posts

Tuesday, May 04, 2010

Saudades de ti

Não!
Não é de quando me oferecias os pomos de teus seios
E me perdia no mel dos teus beijos
Ou quando, no teu corpo navegando,
Na praia do teu ventre naufragava,
De que mais saudades tenho!...
Indeléveis saudades tenho,
De te ver em frente a mim à mesa do café
E o meu sapato tocava no teu pé
Quando o meu olhar o teu perscrutava
E então, tantas vezes sorria…
E outras quase chorava…

Friday, December 18, 2009

Não sei ser triste - Fernando Pessoa

Não sei ser triste a valer
Nem ser alegre deveras.
Acreditem: não sei ser.
Serão as almas sinceras
Assim também, sem saber?

Ah, ante a ficção da alma
E a mentira da emoção,
Com que prazer me dá calma
Ver uma flor sem razão
Florir sem ter coração!

Mas enfim não há diferença.
Se a flor flore sem querer,
Sem querer a gente pensa.
O que nela é florescer
Em nós é ter consciência.

Depois, a nós como a ela,
Quando o Fado os faz passar,
Surgem as patas dos deuses
E ambos nos vêm calcar.

'Stá bem, enquanto não vêm
Vamos florir ou pensar.

in Poesia do Eu, Obra Essencial de Fernando Pessoa, edição Richard Zenith, Assirio & Alvim

Mais poemas de Fernando Pessoa aqui

Monday, September 22, 2008

Gosto de ti Calada... Pablo Neruda

Pablo Neruda continua a fala-nos e de que maneira, no dia em que passa 35 anos após a sua morte:

Gosto de ti calada porque estás como ausente
e me ouves de longe, e esta voz não te toca.
Parece que os teus olhos foram de ti voando
e parece que um beijo fechou a tua boca.

Como todas as coisas estão cheias da minha alma
tu emerges das coisas, cheia da alma minha.
Borboleta de sonho, pareces-te com a minha alma
e pareces-te com a palavra melancolia.

Gosto de ti calada e estás como distante.
E estás como queixando-te, borboleta em arrulho.
E ouves-me de longe, e esta voz não te alcança:
Vais deixar que eu me cale com o silêncio teu.

Vais deixar que eu te fale também com o teu silêncio
claro como uma lâmpada, simples como um anel.
Tu és igual à noite, calada e constelada.
O teu silêncio é de estrela, tão longínquo e tão simples.

Gosto de ti calada porque estás como ausente.
Distante e dolorosa como se houvesses morrido.
Uma palavra então, um teu sorriso bastam.
E estou alegre, alegre porque não é verdade.

Pablo Neruda

Monday, June 18, 2007

OS OLHOS RASOS DE ÁGUA - Eugénio de Andrade

Cansado de ser homem durante o dia inteiro
chego a casa com os olhos rasos de água.
Posso deitar-me ao pé do teu retrato,
entrar em ti como num bosque.

É hora de fazer milagres:
posso ressuscitar os mortos e trazê-los
a este quarto branco e despovoado,
onde entro sempre pela primeira vez,
para falarmos das grandes searas de trigo
afogadas na luz do amanhecer.

Posso prometer uma viagem ao paraíso
a que se estender ao pé de mim,
ou deixar uma lágrima nos meus olhos
ser toda a nostalgia das areias.

É hora de adormecer na tua boca,
como uma marinheiro num barco naufragado,
o vento na margem das espigas.

Eugénio de Andrade

(extraido de os poemas da minha vida - Urbano Tavares Rodrigues - Edições Público)